DISTRAÇÃO

DISTRAÇÃO


Era um homem distraído. Extremamente distraído. Tinha-se a impressão que era desligado da realidade. Era tão desatento que ao caminhar para casa, passava além. Se estava de ônibus, passava do ponto. Se estava ao volante, avançava o sinal. Se estava sob observação, esquecia. Em suma, nada o fazia concentrar-se.
    Aliás, concentração era uma atitude que nossa personagem nunca pode imaginar. A desconcentração sim, era seu lugar comum. Era tão distraído que foi capaz de faltar à festa de seu aniversário. Confundiu o dia. Todos foram, menos ele.
    No dia da prova final do curso de Letras, prova final de literatura brasileira, prova para a qual dependia de quarenta pontos, nossa personagem simplesmente se esqueceu. Não compareceu. Nota: zero. Segunda chamada, que aliás, também não foi feita. Nossa personagem atrasou-se. Nota: zero. Repetiu o semestre.
    A distração era tanta que no preenchimento de uma ficha de inscrição para o concurso de literatura da Academia Brasileira de Letras, colocou o nome do pai no lugar do seu. Foi desclassificado a priori.
    Numa fila de banco, depois de tanto esperar até conseguir chegar no caixa, percebia que tinha deixado em casa o dinheiro que fora depositar.
    Esquecer para ele era praxe. Em verdade não era esquecimento, era distração. Não se lembrava, porque distraía. Donde podemos concluir, a partir desta personagem que quem esquece, não esquece. Distrai-se. A distração é a responsável pelo esquecimento. Ou melhor dizendo: Não existem pessoas esquecidas. São distraídas, concorda?
    Espero que você concorde comigo, caro leitor, pois esta nossa personagem é um exemplo único e definitivo desta premissa que acabo de afirmar. Distração e esquecimento são frutos de uma mesma ação: ausência! Explico: Quem esquece, não faz. Quem distrai, não faz. Quem não faz, ausenta-se da ação. Confere? Concorda comigo agora, caro leitor?
    Pois nossa personagem era assim. Soava a desatenção. Desatenção remete-nos a Chico Buarque de Holanda lembra? “...que qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d´àgua.” E  era. Todas as vezes que nossa personagem se distraía, ela cometia uma invasão, ou prejudicava-se ou prejudicava a alguém. A distração provoca a quebra dos compromissos. E era uma constante nele. Sempre distraído, ou, dizendo de outra forma: sempre ausente, ou sempre fora de hora, ou...e os exemplos não acabariam nunca.
    A família já tinha desistido dele. Ao invés de reconhecerem nele a sua dificuldade de concentrar-se, cobravam-lhe como se sua distração fosse uma ação propositada. Pois era justamente ao contrário. Nossa personagem também sofria com isto.
    Certo dia, contrariada pela família, esgotadas todas suas possibilidades de reaver a confiança dos parentes, nossa personagem resolveu assumir uma postura definitiva, que não lhe causasse problemas. Percebeu que era nos compromissos de horários assumidos que mais se perdia. Achou que seria apenas não ter mais horários, assim estaria sempre a tempo. Assim o pensou, assim o fez. Do dia seguinte em diante, não aceitou marcar nenhum compromisso. Abandonou todas as atividades que tinham horário definido. Tornou-se um homem sem horário, sem cobranças, sem compromissos,...sem lenços e sem documentos, como diz Caetano Veloso.
    Hoje vive feliz. Achou uma maneira exemplar de não ter que justificar sua distração. A família agora não lhe cobra mais nada. Todos estão unidos num só pensamento com relação à nossa personagem. Todos têm agora uma só expressão para classificar nossa personagem: irresponsável.
    Por incrível que pareça, para a nossa personagem, ser irresponsável – que ele sabe não ser – é suportável. Distraído – que ele sabe ser – é insuportável.