A REVANCHE DO GPS

A REVANCHE DO GPS


seu GPS. Seus familiares nem imaginavam a que serviria aquilo, com aquele nome estranho. Mas ele comprou e instalou no carro. Aliás - diga-se de passagem – ele era louco com carros. Ter carro era mais importante para ele que tudo.
    O GPS funcionava legal. A cada esquina dizia o que lhe é peculiar. Dobre à direita. Mantenha-se à esquerda, etc, etc... E ele, feliz da vida – a principio - dobrava à direita, mesmo sabendo que aquele não era o melhor caminho; mantinha-se à esquerda, mesmo sabendo que, ali adiante, iria desobedecer.
    A princípio atendia.
    Com o passar do tempo, desobedecia.
    A partir do terceiro mês, começou a brigar seriamente com o seu GPS. Não é possível errar tanto. Fazer-me dar tantas voltas, pensava. Me meter em lugares de acessos tão difíceis. Conduzir-me a ruas em reforma.
    Em suma: o GPS do Boy era um desastre. Mais atrapalhava que ajudava.
    Mas os dias são consecutivos. A vida só anda para a frente. E lá estão, juntos, o Boy e o GPS, convivendo diariamente. Abrir mão do GPS, nem pensar. Todo mundo tem. É moda. Imagina!!!
    Mas a indiferença do GPS também era contínua. Todos os dias se comportava apenas como programado.
    E a teimosia do boy, cada vez mais apaixonado por carros, só ampliava. Ouvia o GPS para desatender. Desobedecia.
    Vai que um dia, já bastante convividos - Boy e GPS - aparece o ódio. Veio chegando devagar, devagarzinho e, com o tempo, assentando-se no coração do Boy.
    Não era apenas o ódio. Era mais. Era aquele inimigo carrancudo que não hesita em repetir, repetir e repetir as mesmas coisas, uma vida inteira em sua cabeça, como um velho daqueles que bebem muito, depois do último porre. Repete! Sempre a mesma coisa!
    É claro que o Boy de nossa estória não tinha a menor noção de sua prepotência. Era capaz de desafiar os deuses sem nem imaginar que o fazia. Aquelas lições clássicas dos modelos Gregos, de Odisseu, nem lhe passavam pela cabeça. Importava-lhe sua imagem diante dos colegas, seu carro novo, completo, com GPS.
    Desafiar Deuses não preocuparia nossa personagem, mas, desafiar GPS, isso era mole para ele. Ainda mais nesta situação finalista de cansaço e esgotamento. Não iria mais admitir nenhum palpite infeliz. E não admitiu:
    Naquela noite, ele e ela – a  namoradinha – estavam a 120 pelo alto da Afonso Pena. O GPS comandando.  A moça, distraída no Celular. Aí, toca o dele. Ele atende. E O GPS: à direita. Ele foi. Distraído. Falava no celular. E o GPS – à direita! E ele foi, a 120...aliás, foram: o Boy, a namoradinha, o carro e o GPS: foram todos para o fundo do barranco, depois daquele vôo espetacular, pós-moderno e inconseqüente. Foi o último vôo deles.