A ÁRVORE QUE COMIA FOLHAS

A ÁRVORE QUE COMIA FOLHAS


    Sucção. Funcionava para dentro de si mesma. Quanto mais crescia, mais era notada no alto do morro, esparramada, puros galhos. Vazios. As folhas vinham, rápidas. Parece que sabiam que teriam pouco tempo. À medida que brotavam já se consumiam pelo tronco adentro. Era como se seu broto fosse a própria boca da árvore, naquele lugar, vigiando.
    O desavisado poderia pensar que aquela era uma árvore careca, dessas que, na seca, ou em pleno outono, deixam cair suas folhas e se mostram na nudez dos troncos. São, às vezes, árvores assustadoras, dessas que são usadas nos desenhos animados, cujos galhos parecem mãos de bruxas e que sempre me impressionaram muito quando, criança ainda, conheci aquele desenho fantástico do Walt Disney - Branca de Neve. Lembro do filme, naquela cena onde a pobrezinha é puxada pelos galhos da floresta, cheia daquelas árvores negras cujos galhos mais pareciam garras de aves de rapina. Coisas da infância.
    Mas a árvore de nossa história era diferente, bem diferente do já conhecido. Era uma árvore sui-generis dessas que, de longe apenas parecem definhadas por estarem sem suas folhas que, bem sabemos, é a vestimenta das árvores.
    Ora, uma árvore sem folhas, no alto de um cume, faz figura. Marca presença. E nossa amiga, a referida árvore fazia. Excelente figura. À noite - naquelas noites de lua cheia das quais Catullo da Paixão Cearense faz alarde naquela musica do Luar do Sertão - pois é...à  noite é que percebemos a dimensão de nossa árvore que, por seus quase cem anos, predomina no alto do morro. Aquele tronco enorme. Aquele tanto de galhos esparramados em todas as direções do céu, e aquele céu negro com uma lua prateada, deixando transparecer a silhueta negra daquela árvore gigante.
    Aposto que você também, ao ver nossa árvore no alto daquele morro deveria ser mais um desses que pensam que é apenas uma árvore sem folhas, em estação do dia. Mas não. Juro, caro leitor. Posso jurar sobre qualquer condição, pois eu tenho certeza que as folhas nascem. Nascem e são deglutidas. Acredite se quiser!
    Já perdi muitos amigos que duvidaram, permanentemente, da possibilidade de ser uma árvore que come as próprias folhas. Minha insistência nunca lhes agradou. Mas continuo insistindo, mesmo correndo o risco de perder você, que agora me lê. Mas, se você tivesse tido a vivência que tenho destas plagas, desta vista e desta casa onde moro, pelo menos teria mais complacência para ouvir-me. Eu não insisto por nenhum outro interesse que o de ser acreditado. Acho que mereço este respeito de quem me ouve. Se alguém se desse ao trabalho de subir ao cume e postar-se diante da árvore por um ou dois dias, na primavera, com certeza iria perceber o que digo. Mas quem? Quem toparia uma vigília dessas?
    Eu sim, o percebi. Não que me postasse permanentemente naquele lugar, mas era meu cantinho de fuga na minha infância. Era para lá que eu corria todos os dias. Só assim pude perceber que as folhas que começavam a nascer, hoje, nunca estavam lá no amanhã. E eu ia, hoje e amanhã, quero dizer, todos os dias. Explica! Folhas que nascem numa árvore que não tem folhas?
    Tenho evitado comentar com estranhos estes acontecimentos, como diria Drummond: “em minhas retinas tão fatigadas”, assim como não me esquecerei que no fim do caminho tem uma pedra. Todas as vezes que tento ir por ai, arranjo mais um inimigo. Não! Em boca fechada não entra mosquito. Vivendo e aprendendo. Passarinho que come pedra....
    No entanto, uma coisa é certa: aquela árvore do cimo do morro, este morro que avisto aqui da minha casa, come folhas! Ora, uma árvore que come folhas não pode ser uma árvore normal. Terei convivido por toda minha vida com uma árvore assassina?