A VIZINHA FOGUETE

A VIZINHA FOGUETE


Quando eu mudei para minha casa nova, em Lagoa Santa, minha vizinha já morava lá, há anos. Aliás, tenho a impressão de que ela foi a primeira residente deste bairro aqui, no alto do Joá.
Há muito eu ouvia pipocarem foguetes neste bairro, sem ter noção da razão dos fogos. Mais tarde soube que ela os soltava para espantar os pombos que lhe invadiam o quintal.
Minha vizinha usava tanto deste artifício das bombas que chegou a ganhar um abaixo assinado, que veio endossado por todos os outros vizinhos do bairro, proibindo foguetes. Daí para cá, e já tem mais de ano, impera o silêncio. Mas a invasão dos pombos continua.
    Minha vizinha é pessoa sui-generis. Contam que ela não veio morar em Lagoa Santa por acaso. Não! E este é o seu segredo. Quando ela morava em Belo Horizonte, já tinha o hábito dos foguetes. Lá não havia pombos. Era uma necessidade inexplicável dos foguetes. Dizia que o estourar das bombas quebravam a monotonia local. E é verdade. Sempre que há um estouro de foguete as pessoas reagem, comentam, reclamam, não importa, mas todos participam, ou para o bem ou para o mal, mas participam.
    Quando fizeram o abaixo assinado contra nossa vizinha ela ficou muito zangada. Sob pena de ser multada pela prefeitura, minha vizinha não pode mais se manifestar através de suas bombas. Mas há momentos em que, para ela, fica impossível passar sem os foguetes. Um bom exemplo é na noite de réveillon, na virada de ano. Todos bombardeiam, menos ela. Desde o ano atrasado, que foi quando saiu a sentença, minha vizinha tem solicitado meu quintal para soltar seus fogos de artifício. Ela compra daquelas caixas enormes, já programadas, para as quais se faz necessário apenas acender um pavio, e tem-se fogos por dez minutos, seqüenciais.
    Neste último ano, foi maravilhoso. Fogos de todos os sons, e de todas as cores. O céu se coloria e explodia numa sensação de festa e alegria. É incrível a felicidade de minha vizinha ao ouvir e ver pipocarem seus fogaréis, mesmo tendo que fingir que são do seu vizinho.
    Mas o mais importante da estória de minha vizinha e de seu traslado para Lagoa Santa é um história que parece falsa e, por isso mesmo, pouco tratada. É como se fosse um assunto politicamente incorreto.
    Como eu contava, minha vizinha foi das primeiras moradoras deste bairro, aqui no alto do Joá. Sempre fogueteira, até que a fizeram parar. É ai que entra a necessidade de contar a história de como minha vizinha veio ter com os costados nesta, à época, longínqua Lagoa Santa.
Dizem as más línguas que ainda em Belo Horizonte, numa noite em que ela soltava uns foguetes como de praxe, que este foguete, não funcionou como os outros. Ela o acendeu e, no momento em que ele deveria estourar, para cima, ele, o foguete, deu foi um arranco que assustou minha vizinha e que, no ímpeto da explosão, arrastou nossa vizinha ares acima e a fez deslocar pelo azul do céu. Os que a assistiam viram-na apenas sair subindo céu acima e deslocando-se como uma pequenina nuvem dançando no ar, e riscando o céu. Fez lembrar Mary Poppins com sua sombrinha sobrevoando Londres.
Pois não foi que nossa vizinha foi levada pelos ares, agarrada no foguete, até aquele lugar que ela, sem o saber, iria descobrir entre pequizeiros: o alto do Joá. Foi aqui que o foguete a deixou e, acredite se quiser, é por isso que ela mora, até hoje, neste lugar. Se duvida do que conto, passe aqui, verifique com seus próprios olhos.