SUOR

SUOR


    Soraya suava demais. Além do normal. Desde criança. Nunca soube a origem disto. Pequenina, indo para a Escola, lembra-se de quando dava a mão a D. Auxiliadora, vizinha da família, que a levava e buscava diariamente ao Jardim de Infância, o Delfim Moreira, da Rua Espírito Santo. D. Auxiliadora usava um lencinho branco que era colocado entre as duas mãos, a dela e a de Soraya. Gentilmente dizia que era para prevenir a suadeira, mas, em verdade, era para enxugar. E naquela época Soraya tinha apenas seis aninhos. Nem alfabetizada estava.
    Na adolescência foi pior porque não havia roupa que não aparecesse molhada, sobretudo debaixo do braço, nos sovacos. Isto sempre foi o horror de Soraya. Mas suava. Quanto mais banho tomasse, mais água seu corpo descartava.
    Nas aulas de ballet clássico, numa simples pirueta ou pequeno tour, espargia água nos colegas. Tanto que, em sala de aula, era sempre a última e destacava-se do grupo. Tinha esta liberalidade da maitre de danse. Soraya era tida como excelente aluna. Teria sido uma grande bailarina. Tinha um en dehors maravilhoso, era graciosa nos saltos, leve, ágil. Tinha uma abertura incrível. Seus arabesques eram fantásticos e seus cambrées inacreditáveis. Nos pas-de-deux é que veio a ter o problema maior. Inibia-se por seu suor. Sempre que dava as mãos ao partner, ou pela coreografia ou por algum suporte en l´air, Soraya sentia o coração bater mais forte. Não pela dificuldade da dança, mas por saber que incomodava. Tinha vergonha! Abandonou a dança.
    Na Escola convencional Soraya fez o curso, de Letras na Pucminas. Excelente aluna. Soraya sempre amou ler e o curso atendia muito ao seu sonho: Professora de Literatura. Depois de formada Soraya não chegou a lecionar. Apesar do convite da Coordenação do Curso que via nela talento nato, Soraya não pode aceitar. Suava demais!
    Soraya não se casou. Namorados teve, muitos, mas todos por pouco tempo. Suava demais!
    Quando se viu “titia” e percebeu que seu tempo de ter conquistado um marido estava vencido, começou a dedicar-se aos sobrinhos: Carlinhos e Heliane. Foi bom enquanto durou. Mas chegou o dia em que as crianças repararam:
    -“Nossa Tia! Credo! Você sua demais!”
    Foi ai o inicio da depressão final. Soraya ainda era muito nova: cinqüenta e dois!
    Cinquenta e três, cinqüenta e quatro... e chegou a hora de Soraya.
    Muito nova! Morreu com apenas cinqüenta e quatro anos. A causa mortis foi depressão.
    O velório aconteceu, mas com caixão fechado, o que causou muito estranhamento nos presentes, sobretudo nos parentes mais próximos. O segredo de Soraya teria sido enterrado em fechado caso os sobrinhos Carlinhos e Heliane, agora adultos, não se sentissem na obrigação de justificar para todos: em verdade Soraya não morreu. Derreteu! Escorreu!