O IMPRESSOR

O IMPRESSOR


era muito infeliz. Ela, a esposa dele, não parava de falar. Uma matraca. Disparada. Dia e noite. Um inferno!
    No tempo de namoro ele achava natural. Percebia como um entusiasmo por estar junto do namoradinho. Achava ingênuo. Bonitinho. Até gostava.
    Recém casados, também soava natural. Ele passava o dia na tipografia. Era bastante plausível aquela falação da esposa. Tinha ficado o dia inteiro sozinha. Ele via como uma demonstração amorosa. Até gostava.
    No entanto, com o passar do tempo, ele – Anselmo Duarte – passou a se cansar. Se folheasse um jornal, não conseguia concentrar-se. Ela – Eliana – estava ali, ao lado, firme...falando. Se ligasse a televisão para ver um jogo, Ela estava ali, ao lado, firme...falando. Se tentasse ver o jornal falado da televisão, Ela...
    Foi indo cansou. Tentou fazer com que ela o percebesse, na maior finesse. Não conseguiu.
    Tocou diretamente no assunto, com muito carinho e educação. Não conseguiu.
    Foi explícito! Não conseguiu.
    Começou a vir mais tarde para casa. Fechava a tipografia, passava no bar da esquina. Jogava conversa fora com alguns amigos. Tomava uma cervejinha. Sentava-se à mesa do passeio e ficava a ver correr o transito a sua volta. Observava os transeuntes. Ganhava um tempo. Ai então rumava para casa.
    Não adiantou. A “falação de papagaio” ocupava o resto da noite. Daquele momento em que punha os pés em casa até o momento em que Eliana, exausta do próprio falatório, desmaiava, exaurida de tanto falar.
    Anselmo Duarte estava em seu limite máximo. Ou Eliana se calava ou...
    Pois foi o que fez. Decidiu-se! Não passaria de amanhã.
    Na manhã seguinte Anselmo fingiu que não ouvia. Tomou seu café, pegou seu carro e se mandou para a tipografia. Mal chegou, ligou para Eliana, em casa.
    - “Venha imediatamente aqui. Preciso de você, urgente.” E desligou.
    Eliana espavoriu. Nunca tinha acontecido antes. Alguma coisa muito séria seria. Tomou seu café, pegou seu carro e se mandou também para a tipografia.
    Anselmo tinha acabado de preparar tudo.
    Eliana chegou! Estacionou. Desceu do carro. Adentrou a Tipografia. Foi engolida! A impressora inspirou fundo e - antes que Eliana iniciasse seu falatório – a engoliu tragicamente. Sobrepassou-a. Passou por cima dela. Espremeu Eliana, ou melhor: imprimiu Eliana. Ela achatou-se como uma folha de papel. Foi impressa, compreende?
    Hoje Eliana é uma página de livro. Impressa. Não fala mais. Mas pode ser lida.