ALQUIMIA

ALQUIMIA


Dizem que o ouro é o metal dos Deuses e que são de ouro os objetos mais reverenciados. Lê-se até que os alquimistas - mais que o ouro que pudessem obter a partir de materiais menos nobres – pretendiam realmente era o lugar da divindade.
    Alquimia em si é um assunto vasto, que tem história e é apaixonante. Mas não é este o tema que se pretende neste conto, caro leitor. Apesar de tanto enredo vinculado à alquimia, o que se pretende mesmo aqui é narrar um caso, verídico, do qual este autor foi testemunho. A alquimização de uma mulher. Acredite se quiser!
    Walquíria é a mulher. O marido chamava-se José Bonifácio de Almeida. Walquíria, desde que dera por encerrado seu casamento com José, não assinava mais Almeida. Usava somente seu nome de solteira – Walquiria Borges. O casamento estava encerrado, mas continuavam morando juntos, se tolerando. Para toda a família eram o casal exemplo. Os dois se comportavam em público com um hipócrita e fingido carinho. Esmeravam-se na fala e, sobretudo na postura. José e Walquíria eram o “casal perfeito” para todos, exceto para si mesmos.
    Escravos que se permitiram tornar nesta imagem de “casal feliz”, José e Walquíria passaram a ter, por isso mesmo, uma relação diferenciada. Aprenderam a se respeitar, já que não se amavam. Respeito era bom e ambos gostavam. Com isto, passaram a ter uma relação inesperada, mesmo para si.  Chegaram a aparentar tanto carinho que ficou impossível a terceiros perceberem a verdade. E isto convinha, cada vez mais, a José e Walquíria.
    Mas, como dizia Abrão Lincoln: Pode-se enganar algumas pessoas todo o tempo; pode-se enganar todas as pessoas algum tempo; mas não se pode enganar todas as pessoas todo o tempo!
    E foi assim que aconteceu com nosso casal “feliz”. Foram descobertos. A família enxerga com olhos muito maiores. A família percebe. A família descobre.
    Flagrados em desamor, José e Walquíria resolveram não perder a linha. Manter a farsa de amor eterno. Achavam que poderiam continuar enganando e contradizendo aos maledicentes. Se assim pensaram, assim fizeram.
    O amor faz loucuras. José e Walquíria, desde que começaram a fingir amor, começaram a acreditar nisso. Com isso, caro leitor, percebemos nascer um amor verdadeiro para encobrir o desamor do passado.
    As atenções redobravam. José vivia para proteger seu amor por Walquíria,e, Walquíria vivia para proteger seu amor por José. É aqui, caro leitor que entra a alquimia, assunto abandonado lá no início do conto, lembra? Pois foi assim:
    José e Walquíria combinaram não se entregarem aos maledicentes. Haveriam de comprovar o contrário. Transformariam, alquimicamente, seu desamor em amor e mais...E isto é o inesperado: combinaram entre si que, ao morrer um dos dois, o outro transformaria seu corpo numa escultura.
    Walquíria desencantou primeiro. José fez com que seu corpo fosse esculpido em ouro puro e dizia para todos que aquela Walquíria era a original, alquimatizada.  Acredite se quiser!

Desencantou também nosso dileto amigo, o grande dramaturgo mineiro Ronaldo Boschi. Ator, diretor, ilustrador, professor universitário e de teatro entre tantas outras facetas. Poucos dias antes de sucumbir a um câncer no pulmão, Ronaldo nos chamou em sua casa e nos pediu que publicássemos 24 contos denominados “Contos Absurdos”. Disse-me que achava nosso jornal deveras literário. O atendemos e Ronaldo pôde ver publicado quatro deles. Publicaremos os vinte restantes e esperamos que os leia onde estiver.