A REVOLTA DO ARMÁRIO

A REVOLTA DO ARMÁRIO


    Ele, o dono do armário, não tinha limites. Desde que montara o armário para roupas que perdera a conta das novidades. Ternos, camisas, calças, meias, gravatas, cuecas, lenços, chapéus, coletes, blusas de frio, e tudo o mais que se fizesse necessário, cabia, e continuaria cabendo naquele armário.
    Como toda gente, ele, o proprietário do armário, achava que armário é só armário, desses que existem em todas as casas, mortos, calados, esquecidos. No entanto – isso ele não podia imaginar – o seu armário existia. Não existir, como os outros citados. Aquilo é existir, porque citado, mas não têm vida. Existir aqui, para o armário desse dono, era ser. O armário dele era diferente. Existia de verdade, como gente. É, de verdade mesmo, assim como gente: existir. Se nos remetemos a Descartes vamos nos lembrar de sua máxima: Penso, logo existo. Não! O armário daquele dono existia, mas não pensava, não, isto seria exagero dizer e poderia fazer você, meu caro leitor, duvidar de mim. Mas o armário deste proprietário existia, apesar de não pensar. E pior, não pensava, mas sentia revolta. É! Com o tempo de uso, com o passar do dia a dia, com o advir de mais e mais coisas para seu bojo, foi-se revoltando. Foi com o tempo. Devagar. Hoje, mais um par e sapatos. Amanhã, mais uma caixinha de lenços, depois de amanhã, mais uma camisa nova, e daí por diante, um crescer de volume que foi criando raízes, ou melhor: revolta.
    Não sei se o leitor é capaz de imaginar uma revolta de armário. Mesmo para mim, ao tentar escrever este texto, isto soava estranho. Armário que sente, que tem ação humana, já me fazia duvidar da idéia. Mas muitas vezes a realidade supera a ficção. Este é o fato com relação a este armário deste proprietário que estou contando para vocês. Tentei não me envolver com este enredo. Tanto é verdade que vocês devem ter percebido que nem sei o nome do proprietário, mas isto não me redimiu de ter que escrever esta história. Era tão incomum que, se eu deixo passar e não tento escrevê-la, podia esquecer. Se esqueço, quem se lembraria do fato depois? Pois é! Escritores têm este tipo de responsabilidade. Ou informam seus leitores ou deixam de escrever. Deixar de escrever, a meu ver, é crime. Escritor tem obrigação!
    Mas houve um dia em que nosso armário se viu pleno. Pleno no sentido de completamente lotado. Caberia uma plaquinha: Não há vaga! Mas armário não é alfabetizado. Armário não escreve, armário não age...bem, em nosso caso este armário era uma exceção, como se verá mais adiante.
    O fato é que o proprietário deste armário chegou nesta noite, cansado, depois de um dia de trabalho e de um passeio para compras no shopping noite adentro, com um terno novo. Terno chic, destes pretos, risca de giz, com colete e paletó. Junto, embrulhos menores, com camisa, gravata, meia...puxa: um enxoval completo. Muita coisa! Enquanto embrulhos, lá fora, tudo bem, mas...
    E não deu outra. Tão logo os embrulhos iam-se abrindo, novos cabides eram requisitados e novos espaços eram ocupados, ou melhor, apertados entre outros espaços já apertados. Não cabia mais nada.
    Nosso armário não sabia o que pensar. Mas nem pensava mesmo.
Nosso armário não sabia o que sentia...mas sentia...náusea, vômito. Satisfação plena que beirava o vômito.
    É verdade que não houve testemunha outra senão a voz do próprio proprietário para narrar o fato acontecido. Salvou-lhe a vida o telefone celular pois, mesmo soterrado dentre as roupas que lhe foram vomitadas em cima, uma pilha enorme, com todas as roupas do armário, mesmo assim, soterrado, foi capaz de tomar o celular e apertar o 190 salvador. A polícia o desenterrou de entre as roupas. No laudo policial foi inevitável um culpado: O armário!