A ÓBVIA

A ÓBVIA


Ela era óbvia demais. Tudo que fazia, ou pretendesse fazer, era previsível. Tinha nascido para o lugar comum. Nunca conseguiu ser mais que isso: óbvia.
    Quando criança, na escola, sua obviedade era tamanha que chegava a ponto das professoras terem que pedir silêncio a Emilinha. Era como se fosse uma criança sem desconfiômetro. Achava que as coisas lógicas eram produto de sua inteligência. Não percebia que tudo o que falava ou repetia, era déjà-vu. Não tinha noção.
    Os lugares comuns, essas máximas do povo, estas falas vazias que não dizem nada de novo a ninguém porque já são do conhecimento de todos, são ditas por Emília - hoje adulta e já com mais de 80 anos - como se fossem grandes achados. A família já desistiu dela. Os filhos cansaram. Vivem o mais longe possível. Os netos tomam a benção de longe. O marido, o pobre coitado, tem convivido a vida inteira com isso, mas agora, com 85 anos, quase não escuta e, assim sendo, pouca diferença faz.
    Ao dizermos que D. Emilia é óbvia demais, parece-nos, caro leitor, estarmos de certa forma desprezando toda e qualquer idéia que nossa personagem possa ter tido pela vida afora. Mas posso garantir, acredite, não teve. Tudo que Emília foi capaz de dizer e de fazer, não foi criação pessoal. Criatividade aliás, é a única qualidade que nem deveria ser mencionada neste conto, já que em se tratando de Emília, o máximo é a repetição.
    Quem tem alguma leitura dos clássicos e algum dia já folheou algum texto da Poética de Aristóteles, com certeza pode estar achando que Emilia não foge então ao lugar comum, o lugar da massa, do coro clássico, o qual Aristóteles trata muito bem. É verdade. A massa, o povo, só é povo porque é mimético, quero dizer: repete. É verdade. A massa é assim mesmo, e nossa personagem também o é. Mas com Emília, caro leitor, é mais ainda porque ela além de ser mimética – quero dizer: ficar repetindo as coisas – ela é óbvia, ou seja: insiste em frisar que está repetindo, percebe?
    É angustiante.
    Chega a dar arrepios saber que, após qualquer fato ou ação acontecida diante de Emília, ela vai dar a sua “máxima”: uma obviedade sobre o mesmo assunto.
    Chega a lembrar a gente do exercício do jazz: variações sobre o mesmo tema. Só que no jazz, é para provocar no músico executante o improviso, a criação, a atitude criativa diante daquele tema. Agora, em Emília: é teimosia! É apenas repetição. Tipo assim:
    Alguém: - Está uma linda tarde!
    Emília: - É! Está uma linda tarde!
    E ponto final!
    Caro leitor, nem sei pra que te conto isto. Desculpe-me! Perdoe-me! Eu precisava desabafar!
    Eu sou o marido!