Vinte anos de sucesso absoluto

Vinte anos de sucesso absoluto


Cleuza Santos - Proprietária da JRN TintasTalvez a primeira recordacão que eu guarde “da loja” é de quando, por volta dos cinco anos, subia as escadas de ardósia que levavam ao escritório, voltando do jardim de infância, para queixar de dor de cabeca à minha mãe.  A loja, naquela altura, já estava fechada, e geralmente eu era sua única companhia. Deitado no sofá onde durante o dia se sentavam os representantes, minha mãe tentava aliviar minha dor, enquanto “fechava o caixa” e organizava as pilhas de papel sobre sua mesa. Naquele tempo, a loja para mim ainda não era “a JRN Tintas”, os representantes eram homens com malas pretas e não entendia porque era tão complicado “fechar o caixa”.
Não sei quantas vezes ouvi o rangir das portas de ferro e não imaginava que um dia conseguiria, eu mesmo, abri-las. Quando elas se abriam, geralmente era meu pai quem aparecia do outro lado. Era hora de levarmos minha mãe para o curso noturno de Administracão. Era raro dormir antes que ela voltasse. Geralmente me distraia com fantasias e brinquedos, enquanto, no telejornal, meu pai ouvia ao Bóris Casoy dizendo “isso-é-uma-vergonha”, ao final de cada notícia. Quando ela voltava, eu ainda a acompanhava em meio a livros e contas, até que finalmente adormecia.
Sou um ano mais velho que a loja. Quando, mais tarde, perguntei à minha mãe sobre a origem da empresa, descobri que ela se iniciou em um pequeno cômodo, abaixo do “predinho”, na Rua José Avelino, onde moravam meus pais e alguns dos meus seis irmãos. Não havia, então, qualquer comércio especializado em tintas na cidade. E como crescia a procura pelo produto no depósito de construção que meu pai possuía, decidiram inaugurar um novo negócio. O nome, meu pai me contou, são as iniciais de meu avô, José Ribeiro Neto, que já no fim de sua vida, quase cegado pela diabetes, vislumbrou que os olhos cinzentos do neto recém-nacido seriam azuis.
O empreendimento foi bem sucedido. Depois de alguns anos, precisaram de um espaço maior e se mudaram para o endereço na Rua Acadêmico Nilo Figueiredo. Boa parte da minha infância e adolescência se passou entre um lado e outro dessa rua, entre uma empresa e outra, entre meu pai e minha mãe. E levou algum tempo até que eu pudesse atravessá-la sozinho.
Hoje, vejo que a JRN Tintas cresceu. As escadas não são mais de ardósia, as folhas de carbono e as máquinas de escrever foram substituídas por várias geracões de computadores e os pisos não precisam mais serem resinados a cada ano. Já há algum tempo, desde que me mudei da cidade, que meu contato com a loja se dá sábado sim, sábado não. As portas ainda são de ferro, mas consigo erguê-las.
Nos últimos vinte anos, o outro lado do balcão me viu crescer, mudar, e às vezes hoje nem me reconhece. Porém, quando acontece de encontrar a loja ainda aberta, atravessar a entrada principal me transmite uma sensacão familiar. Ainda encontro o sorriso tímido da Celi que quando pode me diz “ei ró!”, ou do Rogério, sempre prestativo à porta. Leise e Luciene nunca hesitam em me ajudar com algum problema cotidiano. A chave do carro provavelmente está com o Rinaldo e sempre ouço histórias da Joelma pelo meu irmão mais novo, o Bê. Alguns rostos, sempre gentis, não me são tão familiares. Outros já não se encontram mais lá. As embalagens também já não são as mesmas e a cidade assume novos tons, num ritmo que não consigo acompanhar. Talvez será preciso uma outra testemunha para a história que se seguirá, mas deixo registrada aqui minha pequena contribuicão.
Robertinho, filho da Cleuza, da JRN Tintas. Em 2012, “a loja” completa vinte anos.