Hipocrisia – não quero uma pra viver! [Parte 03]

Hipocrisia – não quero uma pra viver! [Parte 03]


Encerrei a crônica da edição passada falando sobre jovens, ou que falaria sobre eles. Que maravilha! Juventude! Fase áurea da vida, pueril, recheada de descobertas, prepotências, um bom bocado de irresponsabilidade, sono profundo, preguiça desenfreada, candente de comichão, sonhos e tesão, muito tesão, diga-se de passagem. Não necessariamente nessa ordem. Que fase soberba, cara pálida! Mudança de hábitos, independência, ciúmes juvenis e machesa apoplética. Fase afirmativa, combativa, destemida e inconseqüente! E tenho dito! A fase infantil termina com a intermediação da fase juvenil. É o ocaso da infância, o adeus aos estertores da puberdade, às espinhas macilentas. As penuginhas deixaram de ser novidade, o gogó saliente não causa mais comoção e a voz estridente vai ficando na lembrança. A partir daí vem o início da fase adulta, o raiar da primeira manhã do resto de nossas vidas. É nesta fase que recebemos o embornal que carregaremos vida afora. É onde guardaremos os utensílios de primeiros socorros para o físico e para a mente e onde encontraremos as pílulas da sabedoria e as sandálias do Pescador. Embornal no ombro e vida que segue! Êta mundão bão, aqui vamos nós. Sozinhos e por conta própria. Construindo a estrada que será pavimentada com suor, lágrimas e sangue. O que passou nos tirou a pecha de neófitos e serviu de base para a formação da personalidade, do caráter e da virtude possível. É chegada a hora de abrirmos a mente para a civilidade, a sensibilidade e a tão desejada maturidade. Aprender a viver merece atenção e despojamento. Carece de compreensão da humanidade e principalmente do abrigo à comiseração. Senhor! não nos deixe cair em tentação, livra-nos do mal, Amém! Esse deveria ser o lema dos que trafegam por esta estrada sinuosa e obscura do porvir. Esta prece ajudaria a iluminar nossos caminhos, e bastaria, não fossemos a renitência em pessoa. Este deveria ser o caminho a percorrer, construindo, edificando e limpando a alma. Purificada pelo Espírito Santo. Benigno e imaculado. Mas...vejam bem, caros leitores, nem tudo são flores. Nem tudo é o que parece ser. É que nos deparamos inúmeras vezes com homens espigados, espadaúdos e empertigados, que mesmo tendo passado pela infância e juventude, muitas vezes, já no início da maturidade sucumbem ao jugo paterno e acabam perpetuando injustiças, vinganças, litígios e peleas. Triste jugo do passado; carregam. Triste derramar de bile, triste sina de compromissos de outrem a cutelar suas mentes. Ex crianças, jovens em fim de feira e pequenos homens ainda influenciáveis e atormentados pelo jugo paterno. Coisas de família aparentemente feliz e civilizada, mas no fundo cheia de ranço, de rancor, de corações de pedra, ou será simplesmente, de má influência? Inúmeros jovens se transformaram na continuidade de seus pais, deixaram de viver suas próprias vidas, demonstrando não se desgarrarem de seus tutores, não por afinidade, mas por eterna dependência e temor. Talvez até como se nos tempos feudais vivessem. Agarrados ao passado e degradados e aviltados em seu amor próprio. Jogados no id, tenebroso poço da existência humana. É possível que nele, vivam e morram. Se tornando personagens sem rosto, sombras claudicantes e errantes. Não passarão, nem passarinho. Apenas como mortos vivos atenderão aos desejos de seus impulsos. Viverão se fortalecendo em seus desejos inconscientes e não aceitarão frustrações. Evitarão contato com a realidade e sua satisfação estará sempre em atingir o objetivo através de uma ação concreta, mesmo que sem sentido algum. Os que vivem na choupana do id desconhecem o juízo, a lógica, valores, ética ou moral e se tornam cegos, irracionais e egoístas. Benza-nos Deus e xô Satanás! Afaste de mim este cálice. Essa deve ser nossa prece diária, para que não nos deixemos influenciar por estes jovens rebentos, xifópagos de virulência e continuadores de guerras fratricidas e intolerância política. Alto lá! Quem vem ai! Está trazendo o embornal?