Esporas Prateadas (parte I)

Esporas Prateadas (parte I)


Deitado em uma das redes da varanda dos fundos da minha casa, ouvindo o gorjeio de Bem-te-vis, papagaios, Joãos-de-barro e até tucanos, viajei através do túnel do tempo e me encontrei de volta a um passado que deixou marcas profundas em meu ser. Também aquele pôr do sol visto de minha varanda, me fez retornar ao Velho Oeste, quando do encerramento da minha longa carreira de pistoleiro implacável. Saiba caro leitor, fui o último dos justiceiros. Vivenciei inúmeras aventuras no Velho Oeste, percorri estradas empoeiradas e lugarejos inóspitos, aqueles que se encontram na divisa do fim do mundo, bem na esquina do inferno. Esta aventura que vou contar é verdadeira e você pode acreditar piamente, pois não sou dado a mentiras e invencionices.  Após cavalgar em meu querido pônei por mais de cem léguas através de desertos escaldantes e adentrar canyons e vales profundos, um deles, de meter medo ao Touro Sentado, denominado “Garganta Profunda del Diablo Rublo”,  chego à Kansas City, bem perto de meu destino final - o lugarejo sombrio conhecido como “Tres Cruces”. Mordo os lábios ressecados e feridos pela jornada sob o sol escaldante e inclemente do deserto de Oklahoma e cuspo poeira e areia no chão daquela cidade que ora me acolhe. Penso comigo – amanhã o nome daquele lugarejo passará a ser “Quince Cruces” ou “vinte Cruces”, pois meus revólveres Colt 49 e meio irão cuspir balas de prata para tudo quanto é lado. São duas preciosidades com cabo de madrepérola e canos longos que carrego dentro do belíssimo coldre Louis Vuiton, feito sob medida para esta derradeira missão. Ao chegar lá, naquele maldito lugarejo e cumprir minha tarefa irei me aposentar e então passarei o resto da vida numa cidade do Brasil denominada Saint Lake ou somente Lagoa Santa. Matar ou morrer sempre foi o meu lema e agora não será diferente. Lá em “Tres Cruces”, o destino me aguarda - irei enfrentar o bando do sanguinolento, trapaceiro e estraga prazeres – Tião Gavião. Sob suas ordens também estarão lá – Lex Lutor, Dick Vigarista, Coringa,  Coyote, os irmãos Metralha, Maga Patalógica, Madame Mim,  Bafo de Onça,  Capitão Gancho,  Frajola, Zeca Urubu, Cruela, Dr. Silvana e tantos outros facínoras e vilões que mereciam ir desta para melhor urgentemente.  Minhas mãos estavam crispadas sobre o Colt 49 e meio que carrego em meus coldres da Louis Vuiton, ávidas para acionar o gatilho despejando bala após bala no coração daqueles delinqüentes juvenís. Toda a escória da humanidade estava lá em “Tres Cruces” acreditando estarem a salvo e preparando novos golpes ao lado da turma do mensalão e da Rosemary. Pensavam eles que estavam a salvo da minha ira, ledo engano, pois nunca falhei em uma missão e não seria esta a primeira. Lembro-me quando estava ao lado do Vingador Mascarado, o meu amigo Pepe Legal, o maior caçador de bandidos do Oeste e ele falava com seu inseparável auxiliar “E não se esqueça disso Babalú”. Assim pensei também: a população de todo o Velho Oeste nunca esquecerá aquela data.  Quando fui Xerife em Ghost City, em apenas um mês, despachei desta para melhor os irmãos Carrigan, temidos pistoleiros e bandoleiros que acuavam populações ordeiras de mineradores e vaqueiros. Depois em Nebrasca Village People acabei com o bando do assaltante de diligências “Nick El Loco de Piedra”. Sempre acreditei que o bem vence o mal e mesmo hoje, não portando mais, uma estrela de Xerife ou de Texas Rangers, ainda assim estarei defendendo os fracos e oprimidos. Logo, logo, faltarão pregos e madeira para tantas cruces, após minha passagem por lá. Cavalguei anos pelo Velho Oeste e vi onde o sol se esconde de verdade, lá onde se encontra o canto da coruja. Do alto das Rochosas, vi até mesmo a China In Box. Mas agora estou em Kansas City, cansado e doido para apear de meu querido pônei e encontrar um Saloon, para uns tragos de um bom scoth, um belo banho de tina e porque não, umas coristas para embalar meu sono. Ao entrar na cidade, fui lendo as placas dos estabelecimentos fincados naquela rua principal. Passei pelo Bank Bostão, pela House da Mother Joan, pela Forever Funerary, pela Churrascary By Big Porcon, pelo Cachoieira’s Cassinos e quando olho para a placa diante de mim, leio com prazer: Saloon bY Zezé. Paro e ouço o som de um piano e de uma rabeca, parece que o lugar é animado, resolvo então ficar ali. Uns bons tragos, muita diversão e depois uma boa noite de sono entrelaçado pelas meninas do lugar. Dormirei o sono dos justos, ou será do justiceiro - você decide. Salto de meu querido pônei e ao pisar naquele chão empoeirado, todos ouvem o tilintar de minhas esporas prateadas e percebo que olham para mim com uma expressão de terror estampada em suas faces. (Continua...)