Besta ao Quadrado

Besta ao Quadrado


Com saudade das crônicas que escrevi nos periódicos que marcaram época em Lagoa Santa – Lagoa Santa Notícias e Lagoa News e atendendo pedidos de inúmeros leitores, deixo-me tomar de assalto por comichão escrevinhador e inclino-me a um mergulho “croniqueiro” num abismo sem fim. Saudosismo, diga-se de passagem, de uma “Besta Quadrada”, de um sobrevivente de épocas imemoriais ou como dizia o mestre Kafunga: “de priscas eras”, repletas de sonhos irrealizáveis e utópicos, mas entusiastas e varonis. Acho até que sou mais do que uma “Besta Quadrada”, sou deveras, uma “Besta AO Quadrado elevada ao cubo”. Aceito também de bom grado a pecha de energúmeno, não qualquer um, mas um, cujos progenitores e genitores eram éguas paridas e alguns tontos pangarés.
Como você, caro leitor, gosto de ler e viajar através do tempo e me esbaldar no espaço de qualquer opúsculo encardido. Por isso, tornei-me vassalo, rei, cruzado e déspota. Fui Capitão de Areia, Jubiabá e Peri. Encarnei Demian, Platão, Sócrates, Aristóteles e Espinoza. Compreendi Jung, Freud e Lacan. Voei nas asas da fada Sininho e me perdi na síndrome de Peter Pan. Presenciei Crime e Castigo, Metamorfose, me abriguei na Casa-Grande & Senzala e experimentei altaneiro - Guerra e Paz. Fui cúmplice de Pilatos e emprestei 30 moedas de prata a Judas. Fui plebeu e vendilhão do templo, de mãos dadas com os Fariseus. Subi colinas, ergui coliseus e o Partenon. Ajudei a destruir Sodoma e Gomorra. Imolei cordeiros, segui estrelas. Perdi o norte. Fui um Lobo na Estepe, admirei o Velho e o Mar, tremi diante do Retrato de Dorian Gray. Acreditei na mudança, no progresso e o homem não mudou! Por isso tornei-me Sancho Pança e aprendiz do Merlin. Venci moinhos, pugnei com espada de madeira, lancei flechas contra opressores, mas acabei perdendo a crença na humanidade. Sucumbi aos homens. Imaginei ter sonhado sonhos, mas delirei estremecendo no leito de morte. A Divina Comédia não bastou para ensinar-me o caminho do ocaso. Sempre fui assaz e pueril crédulo. Achei sempre que a vida seria de progresso, mas não dei ouvidos a Darwin e o pior é que ele estava certo – “Não há progresso e sim adaptação”. Acreditei que a Justiça vencia, mas tal qual Talião tem sido olho por olho... Ah! a retórica, as maldades, as enganações indissolúveis e inquebrantáveis, ameaçadoras e incrustadas na alma humana passaram a ser a bússola dos medíocres. Avaros e perniciosos proliferam e ditam normas e Leis. Ludibriam a nação e se perpetuam no poder. Crimes do colarinho encardido e malversações estão por todo o canto. A falta de gentileza, o açodamento, a indiferença, a desfaçatez, a falta de urbanidade, decepcionam a cada momento e apontam para um futuro inglório e sem volta. No Brasil e no mundo, homens se aboletam no poder e o subvertem em benefício próprio e de seus grupos mesquinhos. Ainda vige a escravidão, só que agora como “Bolsas”, “retóricas” e “Cotas”. Triste sina a nossa. Espero que não haja mais “futuras encarnações”, pois não quero voltar para sofrer atrozmente. Sou mesmo uma “Besta AO Quadrado”. Você aí é algo parecido?