Revitalização da Lagoa Central (Parte III)

Revitalização da Lagoa Central (Parte III)


Eficiência Comprovada

Em outubro de 2009, a Prefeitura de Sabará recebeu recursos do Ministério da Saúde para a construção de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), com 20 leitos de observação. As obras foram entregues em 2012, mas não incluíam uma estação para o tratamento de efluentes. Mesmo sendo um resíduo perigoso, contendo microrganismos patogênicos, além de outras substâncias capazes de afetar a saúde pública, o efluente final era lançado sem qualquer tratamento no Córrego Malheiros, afluente do Ribeirão Arrudas.
O esgoto bruto, explica o professor Luiz Mário Queiroz Lima, doutor em Engenharia Hidráulica e Saneamento pela USP e consultor da prefeitura, apresentava elevada concentração de microrganismos, entre eles aEscherichia coli – cuja presença em água indica contaminação com fezes humanas – com valor equivalente a 1,9 x 107 NMP/100 ml.

Os índices de Demanda Química de Oxigênio (DQO), cuja medição permite quantificar a presença de matéria orgânica, também eram elevados, variando em torno de 940 mg/l; bem como a Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), quantidade de oxigênio necessária para oxidar a matéria orgânica biodegradável presente na água, de 800 mg/l.
“O lançamento desse tipo de esgoto bruto no córrego, além de violar as normas e as leis ambientais, caracterizava uma completa incoerência, uma vez que a UPA é destinada à melhoria da saúde pública. Contrariamente, nas antigas condições, ela poluía o córrego, impactando a saúde e o meio ambiente.”

Operação ecológica
Diante disso, a atual administração decidiu implantar uma ETE para tratar os esgotos, usando a tecnologia de digestão anaeróbia associada à filtração em wetlands, também conhecida como jardins filtrantes. Os resultados de operação da ETE mostram que se trata de um equipamento de elevada eficiência, tanto em termos de eliminação de microrganismos patogênicos quanto de remoção de DQO e DBO.
Como exemplo, a concentração de Escherichia coli na saída da ETE foi monitorada em menor que um. Isso significa que a grande concentração de patógenos foi completamente eliminada pela atividade decompositora e através da filtração promovida pelos jardins filtrantes. “A DQO caiu de 900 mg/l para < 10 mg/l, e a DBO, de 800mg/l para < 6 mg/l”, frisa Lima.
Outro dado de grande relevância ecológica e ambiental é a medida de oxigênio dissolvido, que variou de 1,6 mgO2/l na entrada para 6,6 mgO2/l, provando que o sistema implantado, além de remover poluentes, é capaz de suprir os meios naturais com oxigênio, elemento essencial à vida.

Nossa reportagem visitou a ETE. Sua visão final é a de um jardim tropical. “Ela opera sem uso de energia elétrica, pois não tem bombas ou qualquer peça eletromecânica. Todo o sistema de circulação de líquidos é feito por gravidade, tornando sua operação ecológica e econômica. Por estar situada no solo, a ETE também não produz odores nem barulho, podendo ser instalada em qualquer local”, conclui Lima, autor de 975 estudos e projetos, de 13 livros sobre saneamento e meio ambiente e de mais de 300 publicações técnico-científicas na área.

Workshop sobre urbanismo reúne
especialistas em Sabará
A Prefeitura de Sabará, com o apoio do projeto “Árvores para Viver”, realizou o 1º Workshop de Urbanismo da cidade com a presença do renomado arquiteto venezuelano Fruto Vivas e do professor Luiz Mário Queiroz Lima, doutor em Engenharia Hidráulica e Saneamento. O workshop aconteceu em 12 de maio, no Teatro Municipal de Sabará e atraiu estudantes de arquitetura, engenharia, autoridades locais, imprensa e pessoas interessadas em soluções arquitetônicas ecossustentáveis.

O prefeito Diógenes Fantini abriu o workshop com críticas à falta de planejamento na expansão da cidade de Sabará e ausência de iniciativas para conter o crescimento desordenado. “Não houve um planejamento adequado, podemos notar que essas mudanças são muitas vezes silenciosas. As pessoas que pensam e podem fazer alguma coisa não percebem. Vocês estão vendo aí, a Prefeitura, nos últimos anos, doou terrenos que não eram dela, tombou terrenos para preservar o entorno da cidade e deixou que invadissem tudo”. O prefeito apresentou soluções para conter os problemas urbanos. “Nós temos alguns projetos e ideias que serão trabalhadas, a exemplo da ETE – Estação de Tratamento de Esgoto, da UPA de Sabará, projetada pelo professor Luiz Mário, com jardins filtrantes”, concluiu.

Em seguida, o professor Luiz Mário Queiroz Lima, doutor em Engenharia Hidráulica e Saneamento, mostrou alternativas ecológicas para o tratamento de esgoto. “Nós vamos apresentar aqui uma tecnologia muito simples que já apliquei aqui e em oito países, sendo ceita no mundo todo. São jardins filtrantes para tratamento de efluentes”. De acordo com o professor, a solução mostrada não apresenta odor e o esgoto é todo tratado debaixo do solo. “Na parte de cima do sistema é aplicada uma camada vegetal (jardins) onde não se percebe que o local é uma unidade de tratamento”. Segundo ele, outra vantagem é a ausência de máquinas e de manutenção.

O arquiteto venezuelano, Fruto Vivas, abriu sua apresentação com uma adaptação de um pensamento de Oscar Niemeyer.
“De curvas são feitas as montanhas e rios de meu país. De curvas é feito o universo, e de curvas é feita a mulher que amo”. Logo após a homenagem à Niemeyer, com quem Fruto Vivas conviveu de perto, foi apresentada uma sequência de fotos de monumentos, casas curiosas, obras famosas e grandiosas, desde a torre Eiffel, passando pelas pirâmides do Egito, até uma casa de João-de-barro, e casas construídas em cima de árvores. Também apresentou seus projetos inspirados na natureza, e explicou com detalhes as propostas de cada obra.

De acordo com o arquiteto, o futuro está em criar espaços verdes sustentáveis dentro das grandes metrópoles, como árvores frutíferas plantadas nas estruturas dos prédios, por exemplo.
Após ser aplaudido pelo público do teatro municipal, Vivas terminou a apresentação com a frase “Quem tenta o absurdo, conquista o impossível”.

Lagoa da Reta será despoluída com tecnologia tricentenária
A Secretaria de Obras de Sabará iniciou os trabalhos de construção de um sistema capaz de despoluir a Lagoa da Reta. O espelho d’água, localizado no bairro Campo Santo Antônio, é abastecido por duas nascentes. Atualmente, as águas que eram cristalinas apresentam a coloração verde escuro devido à poluição por algas.
O prefeito de Sabará, Dr. Diógenes Fantini, falou do motivo para a revitalização da lagoa. “A lagoa está poluída, perigosa para a saúde da população, principalmente para esses jovens que gostam de nadar aqui. Ela tem uma bactéria que produz ácido cianídrico, que pode ocasionar doenças de pele, de pulmão e câncer.
Então estamos fazendo os “jardins filtrantes” para melhorar a qualidade desta água. Complementando essas obras de despoluição, vamos fazer um “repeixamento”, como fizemos no primeiro mandato, repovoando esta lagoa com espécies de peixes ornamentais e comestíveis”, declarou o prefeito.

O engenheiro Luiz Mário Queiroz Lima, responsável pelo projeto, deu detalhes sobre a técnica dos “Jardins Filtrantes” que será usada para despoluir a Lagoa da Reta. “Ela é uma técnica muito simples. É uma tecnologia que tem mais ou menos 370 anos de existência, de domínio mundial. Ela se baseia na filtração da água, ou seja, a passagem da água poluída por um meio aonde nós temos os elementos filtrantes, mais as plantas e os microorganismos.
A contaminação, ao passar por estes produtos, vai sendo retida, e os microorganismos e as plantas então absorvem isso na forma de nutrientes. A planta na forma de carbono e os microorganismos na forma de nitrogênio. A lagoa da Reta está contaminada com cianofíceas que são algas e bactérias. E toda esta alga vai ser sugada ao passar pelo sistema, como um filtro que tem na nossa casa”, explica.

O início das obras foi motivo de comemoração para os moradores locais. Gislene Soares Pires, dona de casa, elogiou os trabalhos. “É uma lagoa que todo mundo gosta, aprecia, vêm turistas e com essa obra a gente quer que a lagoa melhore e fique bonita”. Juliano Frederico, carpinteiro, tem expectativas de que a lagoa volte a ser como antes. “Com certeza vai melhorar porque vai dar uma paisagem bonita pra cidade. Uma lagoa que era tão bonita como essa daí. Antes tinha peixe, o pessoal vinha pescar aqui, não tinha poluição. É muito bom que o projeto está acontecendo”, revela exultante o morador.
Segundo a Secretaria de Obras de Sabará, a previsão para conclusão dos trabalhos é de 60 dias. De acordo com o engenheiro Luiz Mário, entre seis e oito meses, a água da lagoa deverá estar despoluída.