Parque Estadual do Sumidouro: Alegria para poucos... Tristeza para muitos.

Parque Estadual do Sumidouro: Alegria para poucos... Tristeza para muitos.


Por Roberty Lauar e Elvis Pereira
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Criado em 1980 e batizado inicialmente como Parque Ecológico do Vale do Sumidouro, tendo ganho mais tarde o nome atual, o Parque Estadual do Sumidouro está localizado na divisa entre os municípios de Lagoa Santa e Pedro Leopoldo. O local guarda um dos patrimônios históricos mais representativos de Lagoa Santa e do mundo, a Gruta da lapinha. É no parque também que estão localizados o Receptivo Turístico/Museu P. W Lund, a Lagoa do Sumidouro e a Gruta do Sumidouro.

No total são 1.300 hectares abrigando 52 cavernas cadastradas e cerca de 170 sítios arqueológicos históricos e pré-históricos. Composto por cerrado e uma vegetação incrível, todos os moradores do entorno ficaram felizes com sua criação, afinal seriam eles os maiores beneficiados das diversas vagas de empregos que seriam criadas e as inúmeras oportunidades de negócios. Vagas essas que inclusive foram prometidas à população. Mas a história linda que estava sendo idealizada acabou tomando outro rumo. Rumo esse que não contava mais com a população do entorno, ou pelo menos com a maior parte dela, que já não estava mais no projeto. O sonho de resgatar a cultura e fomentar o turismo local se tornou pesadelo para todos que esperavam uma oportunidade de trabalho no parque e assim poder contribuir para elevar o nome de Lagoa Santa para o mundo.

O transtorno começou com a demora na implantação das estruturas do parque. Só para se ter uma ideia, as primeiras estruturas só foram construídas em 2010, ou seja, 30 anos depois do projeto inicial. A demora foi tanta, que a área teve que ser mapeada novamente, pois, a demarcação feita na década de 1980 já não era válida. Foi nesse estágio inclusive que se constatou que o parque ficaria na divisa de Lagoa Santa e Pedro Leopoldo. Se não fosse por esse atraso no primeiro projeto, o parque ficaria quase todo em terras de Lagoa Santa.

Com o redimensionamento, Lagoa Santa acabou perdendo mais ou menos 30% da área para a cidade de Pedro Leopoldo. Além disso, pretendia-se construir também no lado de Pedro Leopoldo o complexo denominado Parque dos Primeiros Americanos, projeto grandioso, que acabou não acontecendo, após algumas disputas locais. A construção do receptivo turístico/museu acabou acontecendo ao lado da Gruta da Lapinha em Lagoa Santa e à época, imaginava-se que Lagoa Santa se beneficiaria com esta construção. Hoje, para tristeza de muitos, constata-se não ser esta a verdade.

O JD – Jornal Diferente a partir desta edição irá ouvir os idealizadores, interessados, população, governantes, instituições e administradores, sobre o porquê da frustração dos moradores do entorno e da cidade de Lagoa Santa, quanto aos escassos benefícios proporcionados pelo Parque Estadual do Sumidouro à nossa cidade.
Para o ex-condutor da gruta da lapinha, Rogério Garcia, 52, que acompanhou deste o início a criação do Parque Estadual do Sumidouro, ele e outros moradores da região foram ludibriados. “Quando o projeto estava no início falaram que os moradores do entorno trabalhariam nele. O governo até pagou na época um curso de capacitação para alguns moradores serem condutores. Mas de uma hora pra outra tudo mudou. A administração do parque não valorizou o curso e ainda ofereceu um salário desanimador para todos nós. Não tinha como ninguém aceitar. Era ridícula a proposta”.

Rogério ainda alerta: “Hoje está uma verdadeira bagunça no parque! A maioria dos condutores não é formada. E o que é pior, na Gruta da Lapinha por exemplo, o correto seria entrar 20 turistas por vez, acompanhados por um ou até dois condutores e hoje entram até 30 turistas acompanhados por um só condutor.” Denuncia o ex-condutor.
A doceira Vanda Lúcia de Freitas Gomes, 59, moradora antiga do bairro Lapinha também tem uma profunda magoa da atual administração. Ela foi uma das primeiras pessoas a ter barraca no parque e de uma hora pra outra simplesmente a tiraram de lá.  “Eu e as outras doceiras chegamos a ficar 6 meses em barracas improvisadas, porque o pessoal do parque disse que estava montando um espaço pra nós, mas quando esse espaço ficou pronto, chegaram para quase todas as doceiras e mandaram a gente sair.  Não tiveram nenhum respeito pela dedicação que sempre tivemos com o parque.” Revela Vanda.

Sebastiana de Lourdes, 54, conhecida como “Fiota”, também mora no bairro Lapinha e acompanhou a criação do parque. “Tem mais de 30 anos que sou doceira. Comecei a trabalhar no parque acompanhando minha sogra. Ela foi uma das primeiras doceiras de lá. Na época a estrada que dá acesso à gruta estava sendo asfaltada”, conta Fiota demonstrando orgulho em ter acompanhado o crescimento do parque. Mas logo quando é perguntada sobre o motivo de ter parado de vender seus doces dentro do parque, o orgulho sai e dá lugar à indignação. “Pra falar a verdade nunca entendi porque tiraram a gente de lá. Lembro-me que cheguei para trabalhar num determinado dia e o gerente do parque havia deixado um recado com um funcionário informando que as doceiras não poderiam mais vender os doces ali.” A doceira que hoje tem alvará para vender seus produtos fora dos arredores da gruta afirma que se sentiu enganada pela administração do parque. “O que fizeram com a gente foi cruel! O gerente do parque fez várias promessas, mas no vamos ver mesmo, não cumpriu nenhuma. E depois numa reunião disse que não havia prometido nada. Que tínhamos entendido errado. Poxa! E o respeito com o nosso trabalho? Onde fica? Eu fiquei tão chateada com essa situação que não quero saber de nada disso mais. Desiludi”, comenta a doceira.

A equipe de reportagem do JD – Jornal Diferente procurou a gerencia do parque para esclarecer as denúncias. Rogério Tavares, gerente técnico do Parque Estadual do Sumidouro aceitou falar com nossa equipe e disse que a reclamação feita pelo ex-condutor Rogério Garcia, não procede. Ele confirmou que o ex-condutor realmente fez o curso financiado pelo governo junto com outras pessoas, porém não havia promessa de emprego. Ainda de acordo com o gerente técnico, o ex-condutor chegou a ser monitor no parque, mas por motivos particulares ele mesmo pediu pra sair. Não foi dispensado.

Sobre a denúncia de que estariam entrando na Gruta da Lapinha 30 turistas acompanhados de um condutor inabilitado, o gerente do parque nega que isso esteja acontecendo. “Isso não é verdade. Hoje no parque entram 20 pessoas no máximo com intervalos de 20 minutos, e todos são acompanhados por 2 colaboradores do parque. Aliás, diferente do que acontecia no passado”, diz o gerente afirmando que todos os funcionários do parque são constantemente capacitados através de palestras, cursos, grupos de estudo e avaliação.
Já as queixas feitas pelas doceiras, de que foram maltratadas na hora de saírem do parque, Rogério não quis comentar, mas explicou que qualquer atividade em área pública precisa atender a uma regulamentação. E afirmou que não tem nada contra nenhum colaborador ou ex-colaborador do parque. “Estamos sempre buscando a integração e valorização não só da dona Vanda e da dona Fiota, mas também das demais doceiras, quitandeiras e artesãos das comunidades do entorno. Até criamos a Associação de Doceiras e Artesãos do entorno do Parque estadual do Sumidouro (ADOARPS)”.

Ainda segundo informações de Rogério, o Parque Estadual do Sumidouro tem hoje 65 funcionários registrados com carteira assinada e mais de 80% desse pessoal é composto por moradores do entorno do parque.