Desejo por sexo entre brasileiros diminuiu 40% e pode se tornar raridade no futuro

Desejo por sexo entre brasileiros diminuiu 40% e pode se tornar raridade no futuro


Segundo a Dra Carmita Abdo, a qualidade do sexo entre os casais tem deixado a desejar

Por Elvis Pereira
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Casados há 45 anos, Maria Francisca e Daniel do bairro Francisco Pereira garantem que o sexo ainda é fundamental e assumem que praticam pelo menos 4 vezes por semana. [Foto: Arquivo pessoal]No inicio deste ano foi divulgada uma pesquisa feita por cientistas da Grã-Bretanha onde se revelou que o desejo pelo sexo entre os brasileiros está diminuindo cada vez mais.  De acordo com o estudo, nos próximos anos corre-se um grande risco do sexo se tornar um simples detalhe da relação e ser praticado somente uma vez por mês entre os casais. Os motivos para isso segundo o estudo são vários: a evolução da internet, a correria do dia a dia, ter filhos precocemente, entre outros.
Para entender o que está acontecendo com a vida sexual dos brasileiros, o JD - Jornal Diferente conversou com exclusividade com a Dra Carmita Abdo, sexóloga e fundadora do projeto Prosex da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Dra Carmita é bastante requisitada pelas emissoras de TV de São Paulo como Rede Globo, SBT e Rede Record para participar de programas de grande repercussão e audiência esclarecendo dúvidas sobre esse assunto: o sexo. Abaixo você confere na integra essa entrevista. 
JD - Jornal Diferente:
Doutora quando a pesquisa feita por cientistas da Grã-Bretanha foi divulgada houve uma repercussão negativa no Brasil por quê?
Carmita Abdo:

Em minha opinião essa repercussão negativa foi pelo descontentamento dos brasileiros que tiveram de encarar a realidade. Muitas pessoas chegaram a duvidar da veracidade da pesquisa. Acontece que o problema é que mesmo com tanta informação o tema - sexo ainda é pouco discutido entre os casais, então quando é publicada uma notícia dessas, o “fulano” que pratica sexo todos os dias dificilmente acredita. Porém o “fulano” esquece que ele é somente um em um milhão!
JD - Jornal Diferente:
A senhora acredita então que os brasileiros não gostam mais de sexo?
Carmita Abdo:

Pelo contrário, o brasileiro gosta sim de sexo. Acontece que hoje em dia as coisas mudaram. Há dez anos, por exemplo, a mulher não trabalhava, não existia internet, a vida do brasileiro em geral não era tão tumultuada. Para você ter uma ideia, entre os meus pacientes, nenhum deles pratica sexo todos os dias mais. Existem casos em que o casal faz sexo uma vez por semana. Não é porque eles não querem fazer, acontece que o cansaço e a correria do dia a dia falam mais alto. 
JD - Jornal Diferente:
Quando o homem perde a vontade de fazer sexo, as pílulas, como o Viagra resolvem?
Carmita Abdo:

Você tocou em um ponto importante. A pílula (Viagra) não faz o homem ter desejo pelo sexo, ela faz o pênis ficar ereto fazendo assim o cérebro entender que aquele é um momento de prazer. Existem casos em que a cabeça do homem está tão atribulada que nem a pílula faz efeito. Não significa que o remédio não funciona. Ele só foi usado da maneira errada. Mas de qualquer forma, quem usa remédios ou técnicas terapêuticas sexuais precisa estar com a cabeça tranquila e sem preocupação. E isso está cada vez mais difícil.
Dra Carmita Abdo já escreveu 8 livros entre eles: Descobrimento Sexual do Brasil e Armadilhas da Comunicação. Além disso, a médica é presença constante. [Foto: Assessoria de Comunicação Viver Melhor]JD - Jornal Diferente:
Hoje em dia os jovens estão começando sua vida sexual muito cedo, isso reflete negativamente na vida adulta deles?
Carmita Abdo:

Claro, não tenha dúvida disso. Quando o adolescente começa precocemente sua vida sexual, está acelerando um processo que não é próprio daquela época.  Aí acontecem as frustrações e desilusões.  Várias pesquisas feitas dentro e fora do Brasil mostram que, principalmente, as mulheres que começam a vida sexual muito cedo perdem o desejo pelo sexo antes dos 30 anos. É bom esclarecer, que isso não significa que mulheres nessa idade não vão mais praticar sexo, elas até irão fazê-lo, porém sem vontade e somente para agradar o parceiro.
JD - Jornal Diferente:
Essa falta do desejo pelo sexo está também relacionada ao amor? Hoje é raro ver um casal apaixonado, esperando o dia do casamento para ter a primeira relação sexual.
Carmita Abdo:

Está sim. Hoje o sexo é praticado em qualquer lugar. O que é mais preocupante é que esse sexo é sem nenhum compromisso. A garota está na balada curtindo e, de repente, sente vontade e transa com um rapaz que nunca viu e nem sabe se vai vê-lo novamente.  Resultado: quando completar 25 anos essa garota vai estar cansada de sua vida sexual, pois perceberá que durante todo esse tempo só encontrou companheiros para o sexo.
JD - Jornal Diferente:
O fato das mulheres terem filhos mais cedo atrapalha na vida sexual entre o casal?
Carmita Abdo:

Eu não falo que o filho seja o problema. O casal precisa sim ter filhos, até para o aumento da população, mas o que acontece hoje é que garotas com 15,14 e até com 13 anos estão tendo filhos, ou seja, uma criança cuidando da outra. Isso não se torna um problema só na vida sexual das mulheres, também gera inúmeras dificuldades que elas enfrentarão mais tarde, como a falta de uma profissão, acúmulo de responsabilidades, falta de estudo, entre outros. Se, por exemplo, as pessoas começassem a vida sexual após os 18 anos, como acontecia há dez anos atrás, quando chegassem aos 40 anos todos já estariam mais tranquilos, estabilizados e não teriam que enfrentar a pressão psicológica que enfrentam hoje. 
JD - Jornal Diferente:
Como a senhora avalia a qualidade do sexo hoje em dia?
Carmita Abdo:

Ruim. Principalmente do homem para a mulher. O nível de exigência do homem no desempenho da companheira é altíssimo. Eles acham que a companheira dá conta de acompanhar o que eles vêem em um site ou filme pornográfico, mas sexo é emoção e sensação. Não dá para copiar.
JD - Jornal Diferente:
A senhora acredita que no futuro o sexo possa deixar de existir entre os casais?
Carmita Abdo:

Deixar de existir não, mas com certeza deixará de ser frenquente. E pode ter certeza que isso será em um futuro bem próximo.
JD - Jornal Diferente:
Dra Carmita, tem alguma dica para que as pessoas possam voltar a ter esse desejo pelo sexo?
Carmita Abdo:

Em todas as entrevistas que dou me perguntam isso. Mas a melhor dica que posso dar é que as pessoas não fiquem acomodadas. A semana toda é feita pela correria do dia a dia, então nos finais de semana é preciso sair do habitual. Faça pequenas viagens, passeios e sempre tente reconquistar o outro. Eu brinco que o homem durante o dia tem que preparar a esposa para recebê-lo à noite. Como ele faz isso? Ligando pra ela, falando palavras carinhosas, elogiosas... Se o homem seguir esse caminho, dificilmente a mulher vai recusá-lo a noite.