Uso indiscriminado de medicamentos antidepressivos em Lagoa Santa preocupa autoridades

Uso indiscriminado de medicamentos antidepressivos em Lagoa Santa preocupa autoridades


Por Fabrícia Araújo
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Segundo matéria no Jornal “O Estado de Minas” do dia 25 de janeiro de 2013, no ano passado cerca de 15 milhões de comprimidos destinados ao tratamento da depressão foram distribuídos pelo SUS – Sistema Único de Saúde somente para 10 cidades mineiras. Entre as cidades citadas pelo jornal, Lagoa Santa ocupou o sexto lugar nesse ranking, consumindo cerca de 218 mil comprimidos em 2012.
    Diante dessa imensa quantidade de comprimidos composto pelo princípio ativo Clonazepam- encontrado no Rivotril – um dos medicamentos mais utilizados pela população brasileira para combater a depressão e a ansiedade, o JD - Jornal Diferente foi ouvir especialistas e autoridades da área da saúde pública para saber o que leva uma cidade como Lagoa Santa que possui cerca de 52 mil habitantes a fazer uso indiscriminado desse medicamento  adquirido por meio de receitas médicas ou até mesmo pela  automedicação.
    Segundo informações prestadas pela Secretaria de Estado da Saúde, os transtornos depressivos “tem um significativo índice de prevalência na população em geral. Pesquisa realizada em diversos países, apontam que em média 20% das mulheres e 12% dos homens terão pelo menos um episódio depressivo durante a vida, o que corresponde a cerca de 16% da população em geral”.
    Segundo pesquisa realizada pelo SINFARMIG – Sindicato dos Farmacêuticos de Minas Gerais - na rede pública da Região Metropolitana de Belo Horizonte o total de comprimidos distribuídos, só nos postos de saúde foi equivalente a uma média de 4,19 comprimidos por habitante/ano.
    Com relação ao número elevado do consumo de pílulas destinadas ao tratamento da depressão, o SINFARMIG informou que “trata-se de consumo extremamente relevante e preocupante, que não contabilizou o consumo da rede privada (farmácias e drogarias) nesses municípios, o que sem dúvida, é expressivo e assusta, pois está relacionado a um grave problema de saúde pública e que merece toda a atenção das autoridades competentes”.
    Rilke Novato, presidente do SINFARMIG, afirma que “o número elevado de prescrições desse medicamento (tarja preta, que pode causar dependência física e psíquica) se deve a todo um contexto da cultura do medicamento instalada em nosso país. Essa questão envolve toda a complexidade  da busca do meio mais rápido para a solução dos sintomas, a formação dos profissionais, a prescrição racional, o diagnóstico correto, a indústria farmacêutica, a lógica mercantilista que envolve os medicamentos e as farmácias”.
    Diante deste alto índice de casos de “depressão” e também devido ao elevado número de pílulas receitadas/consumidas em Lagoa Santa no ano passado, o psicólogo Alexandre Pedrassoli, acrescenta que “há muitas pessoas com diagnóstico errado de depressão e muitas delas, sendo mal orientadas pelos médicos”.  Ele cita também os principais sintomas que levam pacientes a fazerem o uso do Clonazepam – “tristeza, ansiedade, falta de ânimo, choro sem razão conhecida, angústia e a perda  de atividades  que antes eram prazerosas”. O psicólogo alerta que nenhuma dessas reações podem ser consideradas, como doenças isoladas. Segundo ele, “quando esses sintomas se estendem por um tempo muito longo, pode ser indicador de depressão, que talvez precise de medicamento, mas isso não elimina a necessidade de compreensão de situações que não estejam boas na vida, que podem causar tais emoções. Às vezes, mudar aquilo que está ruim é a melhor alternativa e não tentar abafar o mal-estar com medicamentos”.
    Corroborando com a constatação feita pelo psicólogo Alexandre Pedrassoli, a Secretaria Estadual de Saúde diz que “há uma alta prevalência da ocorrência de Transtornos Depressivos e devido a quantidade, há também uma certa banalização da população no tocante a um autodiagnóstico de padecer de “Depressão”, onde até mesmo profissionais da área da saúde, podem vir a diagnosticar tal tipo de transtorno mental em excesso e/ou de forma equivocada”.
    O mesmo medicamento que, a princípio pode trazer melhora no quadro, pode também causar males a saúde se for ingerido sem o diagnóstico correto e a prescrição médica.  A primeira constatação do uso indiscriminado do remédio é a dependência psicológica. Alexandre Pedrassoli explica que “pessoas que consumiram o remédio ao longo de cinco anos, tiveram o efeito do medicamento anulado, uma vez que obteve o diagnóstico errado de depressão. Isso se deve à tolerância que o organismo desenvolve ao medicamento”. Ele afirma também que “quem consome antidepressivos por muitos anos, terá dificuldades em parar de tomá-los. Com o passar dos anos o remédio faz menos efeito, o que leva o paciente a consumir dosagens maiores em busca de amenizar os sintomas que ele acredita fazer parte da depressão”.
    Uma das formas para sanar sensações negativas ou quadros de depressão que podem substituir os medicamentos que causam dependência, segundo o psicólogo, é procurar aumentar a produção da “serotonina – substância natural produzida pelo cérebro, pois não leva ao vício e não possui efeitos colaterais, já que é produto do próprio organismo”. Ele afirma que a melhor forma para manter essa substância ativa, é “procurarmos coisas ou atividades que nos agradam e confortam; aprendermos a lidar com situações que causam desconfortos, buscando relaxar e, principalmente, criando coragem para modificarmos tudo aquilo que causa incômodo há muito tempo. Dessa forma as pessoas conseguem mudar a química do cérebro e passam a viver melhor, sem fazer uso de nenhum tipo de medicamento”.
    A Secretaria de Estado da Saúde afirma que “o grande desafio para os três níveis de Governo (Municipal, Estadual e Federal) é avançar no aperfeiçoamento profissional dos trabalhadores da área de saúde. Uma dessas ações do Governo Estadual é denominada Programa de Educação Permanente (PEP) para os médicos generalistas da Estratégia da Saúde da Família que abrange 13 macrorregiões de Saúde em parceria com a AMMG - Associação Médica de Minas Gerais e seus diversos departamentos de especialidades médicas”.