Com uma panela na cabeça e a criatividade em outro mundo!...

Com uma panela na cabeça e a criatividade em outro mundo!...



Por Fabrícia Araújo
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Ele é Ziraldo Pinto Alves, o mineiro de Caratinga que se apaixonou bem cedo pelo desenho e pela literatura. Na infância, fazia desenhos em paredes e lia Monteiro Lobato.  Iniciou sua trajetória com quadrinhos no Jornal Folha de Minas, onde publicava uma página de humor. Em 1960, passou a desenhar cartuns e charges sobre política na revista “O Cruzeiro” e no “Jornal do Brasil”, quando nasceram seus primeiros personagens de sucesso: Jeremias, o  Bom, a Supermãe e o Come-Quieto (Mineirinho).  Na mesma década, Ziraldo realizou um grande sonho :  ter sua própria revista em quadrinhos. Surgiu então, “A Turma do Pererê”, gibi que fez a alegria da criançada. No período Militar, Ziraldo junto a outros grandes cartunistas como Millôr Fernandes, Jaguar e Henfil, fundaram “O Pasquim” – o primeiro e mais importante jornal que lutou pela liberdade de expressão da história do Brasil.  No final da década de 60, nasce das mãos de Ziraldo, o seu primeiro livro:  Flicts – a história de uma cor que não encontrava o seu lugar no mundo. 
Nos anos de 1980, Ziraldo criou o seu personagem de maior sucesso – “O Menino Maluquinho” - lançado na Bienal do Livro em São Paulo, o garoto que usa uma panela na cabeça e tem o olho maior que a barriga, encanta adultos e crianças como um moleque esperto e super criativo.
Aos 80 anos, Ziraldo recebeu uma bela homenagem dos professores José Aylton de Mattos e Nelson Sena Filho com o livro “Ziraldo na imprensa de Caratinga”. O livro fala  sobre a sua cidade natal, contém fotos do autor quando criança, cartas que o autor escreveu e inúmeros textos publicados por jornais locais, em referência a ele.
Em entrevista para o JD – Jornal Diferente, Ziraldo fala sobre seus desenhos, o encantamento pelos livros e a importância da leitura na vida das crianças.
JD: O senhor é mineiro de Caratinga. Foi lá que começou seu encantamento pelo desenho e pelos livros?
Ziraldo: Foi. Nasci lá, não é? Desde que nasci, isto é, desde quando tenho consciência de minha existência, desenhava em todos os lugares: na calçada, nas paredes da sala de aula... Desenhava tudo que vinha na minha cabeça. Minha sorte é que a minha mãe era minha maior admiradora, de forma que eu tinha o direito de desenhar onde me ocorresse. Quanto à leitura, eram os gibis que eu adorava.
JD: Qual foi o primeiro livro infantil que o senhor  leu?  Ele te inspirou de alguma maneira quando começou a escrever?
Ziraldo: “O Mágico”, de Clemente Luz e as adaptações dos contos de fadas do “Tesouro da Juventude”. Mas eles não me inspiraram, não. Gostava mesmo era dos gibis.
JD:  Quando foi que o senhor começou a mesclar as histórias com os desenhos?
Ziraldo: Quando comecei a escrever livros para crianças. Desde o Flicts. Mas, com meus desenhos, sempre fui um narrador pois era “inventador” de histórias em quadros. Eu sempre que desenhava era para contar uma história.
JD: Por que a preferência em escrever para crianças?
Ziraldo: Aconteceu. Tento, como o Drummond disse, fazer com que meus livros possam ser como uma canção: “uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças”.
JD: Como era criar no período da Ditadura Militar, quando o senhor escrevia para o jornal “O Pasquim”? Nessa época, já escrevia para crianças?
Ziraldo: Aí tem história demais para contar. Dá um livro. Posso adiantar que havia, sempre, a censura oficial, embora a censura seja uma função impossível de ser exercida. É ridícula. Nunca se sabe quais são os critérios. E você não pode antepor uma opinião de um policial à uma criação de um artista. Nossa convivência com a censura foi uma aventura dolorosa e sem graça. Mas tem histórias muito divertidas para serem contadas. Vocês sabem: o ser humano é muito ridículo quando não sabe o que está fazendo.
Com relação a segunda pergunta, não escrevia, não. Meu primeiro livro infantil foi o Flicts, lançado em 1969. O livro teve muito êxito. Mas não dei, nesta época, continuidade à carreira de autor para crianças. Fui fazer o Pasquim. Só retornei – ou inaugurei mesmo – minha vida de escritor a partir do Menino Maluquinho, em 1980.
JD: Como o senhor define a leitura na vida de uma criança?
Ziraldo: Fundamental. Enquanto não sabe ler e escrever como quem respira, a criança – ou melhor, o ser humano – ainda não ficou pronto. Descobri que o livro deve ser companheiro. Ou, mais do que isto: deve ser cúmplice. Nenhuma criança que me conhece me chama de senhor.
JD: O que os livros infantis precisam ter, para chamar a atenção de uma criança e levá-la a ter o interesse pela leitura e deixar um pouco de lado o vídeo game?
Ziraldo: Como devemos fazer para uma criança gostar de ler: para que a criança goste de ler, leia com ela, leia para ela. Histórias para crianças eram chamadas – na época que não havia televisão, cinema e nem rádio (pelo menos na Inglaterra, um país de leitores) – de bedtime stories. Eram as mães que liam os livros que estimularam, por exemplo, as irmãs Brönte a se transformarem em grandes escritoras. Os pais e os educadores não podem fazer idéia de como é importante a presença do que se pode chamar de literatura na vida de seus filhos e alunos. E mais importante: não transformar a leitura em dever, em obrigação. Ler é básico. A criança tem que descobrir o prazer que a leitura proporciona. Por isso, eu acho que tem de haver um esforço sério, com base na simplicidade. Um esforço que ensine as crianças a gostar de ler e então, nem será preciso se preocupar com o resto. Não tem que dar especialização à criança, ela tem que dominar o código de leitura com prazer. A escola teria que se concentrar mais nesse assunto.