Dr. Lund – O Pai da Arqueologia e da Paleontologia Brasileira “Parte 7 - Ultima parte”

Dr. Lund – O Pai da Arqueologia e da Paleontologia Brasileira “Parte 7 - Ultima parte”


E  assim se passaram 166 anos
Como se sabe, o órgão mais sensível do corpo humano é o bolso. Com Lund não foi diferente. Tudo bem, ele ficou sem dinheiro, teve de vender seus dois escravos e parou de pesquisar. Mas ainda assim seus irmãos lhe enviariam recursos suficientes para que passasse de forma confortável o resto da vida no Brasil. Por que não voltou à Europa? Talvez fosse o medo do inverno escandinavo. Talvez tivesse receio de sua família descobrir que ele havia perdido uma fortuna no Brasil. Ou, pior ainda, pode ser que temesse que o rei viesse a saber que ele havia omitido deliberadamente aquele “detalhe” quando resolveu doar suas coleções. O fato é que Lund nunca mais falou do assunto. Passados 166 anos desde o fim dos trabalhos nas cavernas e 131 anos desde a sua morte, sabe-se hoje que Lund não havia inventado nenhuma desculpa esfarrapada. A falta de dinheiro era a mais pura verdade. Um cientista brilhante foi obrigado a interromper sua carreira no seu ponto culminante por causa de um empréstimo sem garantias feito à pessoa errada. Ou por um investimento malfeito. Ou ainda por uma crença ingênua na certeza da justiça. Tanto faz qual seja a escolhida, as três respostas resultam num mesmo destino: o dinheiro acabou. E ponto final. A correspondência do sábio de Lagoa Santa juntou pó por cem anos, apenas para ser redescoberta por historiadores dinamarqueses que, contrariamente a tudo que se possa acreditar, não dispunham da única ferramenta necessária para elucidar o mistério da vida de Peter Wilhelm Lund. Não bastava ser fluente em dinamarquês. Não era preciso aprender gótico. Como poderiam desconfiar que a solução estaria numas poucas páginas rabiscadas em português? Agora saibam mais um pouco sobre Peter Moon: Peter Moon se envolveu com a vida de Peter Wilhelm Lund em 2003, quando procurava um tema para sua tese de doutorado em história da ciência. Ao visitar as escavações da equipe de Walter Neves em Lagoa Santa, Moon conheceu o geólogo Luís Beethoven Piló, um fã de carteirinha do dinamarquês. Foi quando o jornalista começou a tomar conhecimento da trajetória do naturalista. Ficou sabendo de suas descobertas e do fim dos trabalhos de campo, que permanecia sem solução. Ouviu falar também da coleção de mil cartas arquivadas há mais de 120 anos na Biblioteca Real de Copenhague. E decidiu tornar a vida de Lund o tema de sua pesquisa (reproduzida em capítulos nestas páginas do JD-Jornal Diferente). O objetivo era entender por que o descobridor do tigre-dentes-de-sabre tinha parado de escavar. Como fonte, Moon escolheu a antiga correspondência. Mas para estudá-la, era preciso antes de mais nada decifrá-la e traduzi-la. O doutorando teve de aprender dinamarquês com professores particulares, e também ler gótico – para o qual não existe professor. Mas, por sorte, há na internet algumas “pedras de roseta”, tabelas com a relação entre as letras manuscritas góticas e as latinas. Elas são obrigatórias, por exemplo, para estudar Soren Kierkegaard, o maior filósofo da Dinamarca e – acredite ou não – primo – irmão de Peter Lund.

NOTA DO JD:
Frase do filósofo Kierkegaard: “A vida pode ser compreendida olhando para traz, mas só pode ser vivida olhando para frente”. Vejam se não tem tudo a ver com a história do nosso Peter Lund.