Dr. Lund – O Pai da Arqueologia e da Paleontologia Brasileira “Parte 6”

Dr. Lund – O Pai da Arqueologia e da Paleontologia Brasileira “Parte 6”


Surge um novo personagem
Embora exista uma lista cronológica das cartas, a coleção não está agrupada dessa forma. Existem diversos fólios, cada qual reunindo um determinado conjunto de documentos. Assim, há um fólio com a correspondência trocada com a família: outro com os Reinhardt (Pai e filho): um terceiro com personagens diversos, entre amigos, colegas naturalistas na Europa, comerciantes e livreiros do Rio de Janeiro: e um caderno de rascunhos cheio de rabiscos, abreviações, frases inseridas e outras riscadas. Era nele que Peter Lund redigia a primeira versão de todas as cartas. Num segundo momento, ele as corrigia. Só então as passava a limpo e as enviava.
Bem no meio das centenas de páginas borradas com garranchos muitas vezes ilegíveis existem três dúzias de cartas em português, enviadas entre 1840 e 1846. Sua leitura conta a história de um processo judicial que Lund moveu contra um certo engenheiro húngaro chamado Franz Wisner Von Morgenstern (1804-1878). O motivo era a falência de uma lavra de ouro da qual Morgenstern era sócio e Lund, seu fiador. Em 1839, o trabalho de Lund nas cavernas estava a todo o vapor. Já imaginando seu futuro retorno à Europa, ele informou à família seu plano de se fixar no sul da França, bem longe do inverno escandinavo. Talvez como forma de aumentar sua fortuna ou simplesmente para repor o que havia gasto nas escavações, resolveu investir numa lavra de ouro no Ribeirão de Papafarinha, em Sabará (MG). Na época, os riscos da prospecção de ouro eram enfrentados por imigrantes europeus. Morgenstern era um deles. Não se sabe quando ele desembarcou no Brasil. Sabe-se apenas que viveu em Minas entre 1839 e 1841, quando desapareceu sem dar notícia. Ressurgiria em 1845 na corte de Solano López, onde projetou o palácio do ditador em Assunção. Em 1865, na Guerra do Paraguai, o húngaro viria a receber a patente de coronel de engenharia, respondendo pelas fortificações no Rio Paraguai.
Esse personagem insólito desempenhou um papel decisivo na vida de Lund. Em fevereiro de 1840, Morgenstern e o brasileiro Martiniano Pereira de Castro, assinaram um contrato no valor de 12 contos de réis emprestados de Lund. Nosso naturalista nunca mais viu a cor desse dinheiro. Já no início de 1841, a mina não havia produzido uma única pepita e faliu. As cartas revelam que Lund se armou de paciência para cobrar a dívida, ao passo que Morgenstern usou e abusou de subterfúgios para postergar o pagamento. O naturalista contratou os serviços de Quintiliano José da Silva, um procurador de Sabará, para cobrar o húngaro na justiça. Foi quando começou a constatar na própria pele que o respeito às leis e uma justiça célere são coisas de país protestante. A morosidade dos tribunais não tem nada de nova. É uma herança dos tempos coloniais, como Lund pode comprovar. Nesse meio tempo, Morgenstern deu no pé.
Assim se passaram 5 anos, os mais produtivos da carreira do naturalista. O que ninguém jamais soube é que, enquanto ele escavava Homéns-Fósseis, perdeu o processo. Foi condenado a pagar as dívidas do húngaro e de seu sócio brasileiro, mais correção e despesas. No caderno de rascunhos encontram-se os cálculos de Lund sobre o valor com juros da dívida de Morgenstern para com ele: 7 contos de réis e 886 mil-réis, ou R$ 318 mil corrigidos monetariamente. Some-se isso aos 12 contos de réis da falência de Papafarinha e temos um prejuízo atualizado que supera a casa dos R$ 800 mil. É muito dinheiro, mesmo para alguém rico. Lund, é claro, recorreu do veredicto. Apenas para ser surpreendido no fim de 1844 com a decisão do procurador Quintiliano de abandonar o caso. Ele havia sido escolhido presidente da província de Minas Gerais e estava de mudança para Ouro Preto. O processo empacou de vez.
No dia 9 de janeiro de 1845, Lund enviou uma carta para Quintiliano informando sua disposição de se mudar para Sabará para acelerar o processo. No dia seguinte, 10 de janeiro de 1845, ele tomou da pena para redigir duas cartas, uma para seu velho professor, na qual levantou a hipótese de encerrar os trabalhos por falta de dinheiro. A outra para o rei, doando suas coleções . (Continua)