Dr. Lund – O Pai da Arqueologia e da Paleontologia Brasileira “Parte 5”

Dr. Lund – O Pai da Arqueologia e da Paleontologia Brasileira “Parte 5”


A Herança de um naturalista
O pequeno Arraial da Nossa Senhora de Saúde de “Lagôa Santa” dos tempos de Lund não existe mais. A rua de terra batida com suas 60 casas simples de pau-a-pique agrupadas na margem de um dos mais belos lagos da região deu lugar a um bairro residencial da periferia de Belo Horizonte, a 15 minutos de Confins. O nome do naturalista, no entanto, está em todo lugar. No centro da cidade, por exemplo, existe uma pracinha com um busto do dinamarquês e a frase “Aqui sim é bom para se viver”. Do outro lado fica a escola Municipal Dr. Lund, construída nos anos 1930 no local onde era a casa do cientista. A poucas quadras de distância fica o cemitério Dr. Lund, uma quadrinha de terreno murado, onde esteve enterrado, ao lado de dois de seus assistentes, o pintor norueguês Peter Andreas Brandt e o alemão Wilhelm Behrens. Como Lund era luterano, não podia ser enterrado em um cemitério católico. Comprou o terreno no alto do morro com vista para a lagoa. Lá crescia um pequizeiro à sombra do qual ele costumava sentar para fumar seu cachimbo e pensar na vida. Árvore de crescimento lento e vida longa, o pequizeiro continua lá, firme e forte. Típico da vegetação do cerrado, estende seus ramos por boa parte do pequeno cemitério. Assim como sua casa, seu jardim, seus livros e tudo o mais que Lund acumulou nos 45 anos em que viveu em Lagoa Santa desapareceram. Os únicos registros existentes são suas cartas. Apenas um par delas estão no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, na Biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. A quase totalidade da sua correspondência, um enorme arquivo com mais de mil cartas, encontra-se na Dinamarca. Parte dela foi reunida logo após a morte do naturalista por seu filho adotivo, o brasileiro Nereo Cecílio dos Santos, que a enviou para J.T.Reinhardt. Este, por sua vez, reuniu as cartas enviadas por Lund aos seus familiares, assim como as endereçadas ao seu pai e a ele próprio. Catalogou tudo, mais de 7 mil páginas manuscritas, e depositou na Biblioteca Real de Copenhague, onde a coleção ficou esquecida por mais de 100 anos. Foi só em meados dos anos 1980 que os bibliotecários, começaram a microfilmar os itens da seção manuscritos antigos. Foi quando a correspondência de Lund voltou à luz do dia. Descobriu-se que seu autor era um poliglota. Além do dinamarquês, dominava o português, o francês, o alemão e o inglês. Também conhecia o latim, grego e arriscava um italiano. Existem cartas em todos esses idiomas, porém a maior parte foi manuscrita em sua língua natal. Mas não um dinamarquês como o atual, escrito no alfabeto latino. Nos tempos de Lund, ainda se escrevia em gótico, um alfabeto usado na Dinamarca até 1885. Os povos escandinavos são todos Vikings, os guerreiros que assolaram a Europa há mil anos. Eles não tinham escrita até serem cristianizados por monges Germânicos, que usaram o alfabeto gótico para colocar em letras os fonemas dos diversos dialetos Vikings. Vale dizer que o dinamarquês deriva de uma mistura de Viking com alemão medieval. Praticamente todo esse arquivo foi decifrado, lido e estudado na década de 1990 por uns poucos historiadores dinamarqueses, com destaque para Birgitte Holten, do Instituto de História da Universidade de Copenhague. Assim se soube que, bem antes do achado das ossadas do Povo de Lagoa Santa, já havia começado a desaparecer da mente do nosso naturalista a linha divisória entre as espécies extintas e as vivas. Antes de encontrar os restos humanos, ele passou a aceitar o fato de algumas espécies terem sobrevivido à Catástrofe Cuvierista. Afinal, uma coruja é uma coruja, um preá é um preá, e um veado-mateiro é um veado-mateiro, estejam eles vivos ou petrificados. A pesquisa de Birgitte, no entanto, não foi capaz de jogar novas luzes sobre as razões que levaram Lund a interromper o trabalho nas cavernas. Foi necessário aguardar um novo milênio. Ao autor deste texto coube descobrir algumas pistas fundamentais. A primeira delas está relacionada à tal carta de 10 de janeiro de 1845, na qual o naturalista confessou ao seu antigo professor que talvez tivesse de encerrar as escavações por falta de dinheiro. Na lista em ordem cronológica da correspondência, existe outra carta escrita naquele dia. Endereçada ao rei da Dinamarca, nela Lund doava suas coleções ao povo de seu país – sem fazer a mínima menção a uma suposta falta de recursos. (Continua...)